quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Ligando Pontos

Quando arquitetos falam sobre trajetos e percursos urbanos, questões temáticas correlatas a qualidade ambiental, segurança, diversidade de usos e fortalecimento das referencias simbólicas, são abordadas. Na prática muitos percursos, pensados por arquitetos (ou não) , não se apropriam dessas preocupações, agregando assim um contra-discurso e uma série de problemas à população. Este texto tenta explorar algumas das minhas experiências nas cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro, trazendo bons e maus exemplos com relação ao tratamento de percursos e intervenções que favorecem articulações. Tenho como referência para a elaboração deste texto a minha aproximação com os contextos abordados e as discussões com meus amigos arquitetos Henrique, Tiago, Lucas, Tadeu e minha esposa Luciana.

Maus exemplos:

1- Rodoviária de Belo Horizonte, Estação de Metrô Lagoinha e bairro da Lagoinha.

Separei esse exemplo pois eu e minha esposa vivenciamos muito a falta de articulação entre esses equipamentos devido as nossas constantes viagens ao Rio. Lá temos equipamentos localizados com distância aproximada de 100 m , separados pelo Canal Arrudas e o conjunto de vias da Av. do Contorno. Hoje os percursos são realizados por um passarela (metade metálica e metade em concreto, uma série de puxadinhos) externa a rodoviária, um entorno imediato que possui um conjunto edificado antigo, subutilizado (com alguns imóveis de referência) e o logradouro público com tratamento insuficiente dos trajetos e uma diversidade de conflitos associados a apropriação no entorno da rodoviária.

Das diversas temáticas necessárias para abordagem do problema, existe uma que me traz grande incomodo pelo fato de não ter sido desenvolvida na construção da estação de metrô lindeira a rodoviária. Por que raios não fizeram uma travessia entre esses equipamentos?!? Outra questão é a articulação do bairro Lagoinha com esses equipamentos e com o centro de Belo Horizonte. O bairro que historicamente foi parcialmente implodido e separado pelo metrô e a abertura da Av. Antônio Carlos, possui uma grande orla para o mar de concreto, asfalto, fumaça e aborrecimento do complexo viário da Lagoinha.


Visualizar kazaerua_ligando_pontos_01 em um mapa maior

Apesar de ter a compreensão de que aquela confusão toda permite articulações com diversas partes da cidade, é verdade que em momento algum houve a real preocupação com articulações que não envolvessem pneus e congestionamentos. A área residual do complexo viário é a nova cracolândia belo horizontina e para quem circula por ali temos apenas a ligação conflituosa anteriormente citada.

2 - As passarelas da Av. Brasil no Rio de Janeiro.

Pra mim a cara do Rio diverso, confuso, malandro, abandonado e mais próximo da realidade da maior parte dos cariocas está na Avenida Brasil. É a avenida do Rio. Minha experiência relativa aos conflitos da avenida me levam a falar sobre as passarelas numeradas que vão do bairro de Deodoro ao Cajú. Elas refletem nas variadas soluções adotadas a pouca importância dada a paisagem dos contextos lindeiros a avenida e a acessibilidade para quem por ali circula. Na época de namoro com minha esposa, vivenciei a avenida e uma de suas passarelas em dias de semana, feriados, finais de semana, dias de chuva e de sol.

As passarelas apesar de mitigarem a separação dos bairros imposta pela Av. Brasil não possuem na sua inserção urbana e desenho a mesma preocupação das travessias urbanas propostas por Reidy ao longo do Aterro do Flamengo.

A maior parte delas não possui cobertura, articulação com os abrigos de passageiros de ônibus, e com seus pontos de acessos não adequados a NBR 9050. Vale destacar que a maior parte das passarelas adequadas a 9050 fazem o pedestre caminhar mais que necessário, devido as soluções que não possuem escadas ou elevadores como alternativas aos usuários. É chuva! É sol! É longe pra demais...

Bons exemplos:

1 - A ligação da Estação Gameleira com o Expominas.

É uma das poucas (se não for a única) articulações entre equipamentos decente em Belo Horizonte. Não é o melhor exemplo com relação as boas articulações de trajetos que existem na cidade (são muitas), mas escolhi aborda-la pois aproveita a oportunidade desperdiçada na rodoviária e porque tenho boas lembranças sobre a utilização do metrô associado a passarela para os eventos realizados no Expominas. A passarela não é um arremedo, possui desenho simples e bonito, destoando um pouco da estrutura de concreto da estação de metrô.

2 - Rio Cidade Bangu

Das diversas intervenções realizadas pelo Rio Cidade a única que defendo com unhas e dentes é a que foi realizada no bairro de Bangu. Projeto do Paulo Cazé, a intervenção efetivamente melhorou a articulação entre as duas porções separadas pela linha férrea com conforto e segurança. O eixo da centralidade do bairro foi tratado com uma requalificação urbanística que contemplou cobertura climatizada, arborização, iluminação, áreas de estar, fontes, muitos paraciclos, e bancas de jornais. O pós ocupação mostra o incremento da promoção de comércio e serviços lindeiros a estação férrea, a ampla apropriação da população e a demanda continua pela manutenção das escadas rolantes e elevadores ali instalados.

A questão que gostaria de enfatizar é que a intervenção rebate o paradigma de que as intervenções urbanas em áreas periféricas não necessitam sofisticação ou soluções que promovam mais conforto a população.

As passarelas

Infraestrutura urbana muito demandada na articulação dos espaços e equipamentos, as passarelas são efetivamente, na maioria dos casos um mal necessário. Devido ao incremento da produção rodoviarista que tomou conta do Brasil da metade do século passado até agora, muitas  cidades tomaram as passarelas como solução para separar o fluxo de pedestre e veículos. Neste contexto a máxima é: "Prioridade ao automóvel e que as pessoas que criem asas".

Os profissionais responsáveis pelo projeto desses equipamentos, arquitetos (ou não), na maioria das situações foram muito infelizes nas soluções para este tipo de equipamento. Dos problemas recorrentes posso citar a falta de acessibilidade, problemas de integração com os equipamentos das modalidades de transporte coletivo, inexistência de proteção as intempéries, pouca diversidade na disposição de usos e desenho conflitante com a paisagem do entorno imediato.

Buscando referências esbarrei com um artigo sobre as passarelas do arquiteto "Lelé" em Salvador. O texto apresenta o trabalho de um arquiteto preocupado em mitigar os conflitos das escolhas viárias da capital baiana. Pra quem quer se informar é uma boa leitura.

Ligar os pontos é necessário para aqueles que por lazer, dever ou necessidade vivenciam a cidade. Existe um processo em andamento de produção das infraestruturas de equipamentos públicos de transporte e áreas de lazer, ampliando assim as oportunidades de ligar e reatar articulações, reforçando o contexto de determinados percursos.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A indignação do Seu Gil e a gestão pública urbana


Há alguns dias atrás liguei para meu pai para saber como iam as coisas e saber novidades sobre a terrinha. Após nossos temas corriqueiros ele me abordou com uma dúvida sobre um problema que ele estava enfrentando. Havia lixo na sua rua e ele já havia feito uma solicitação a Prefeitura do Rio já algumas semanas. Seu principal questionamento até mim foi: Mauro! E agora? O que eu faço?
Seu questionamento era justo, pois eu tinha incentivado algumas vezes a fazer essa solicitação a Prefeitura.

Após alguns dias comecei a refletir sobre o problema do meu pai e a essa questão do atendimento as solicitações da população. Meu pai, assim como muitos brasileiros, enfrenta problemas cotidianos que são gerados, ora pela atitude do poder público, ora da população. Em diversas discussões com a minha esposa Luciana tivemos a oportunidade de refletir sobre a ausência do poder público e o comportamento da população como características de determinado contexto politico frágil onde a população com pouca formação política e instrução elege políticos, que utilizam a maquina pública para reforçar seu capital político. A formação desse capital envolve não-ações e descaso na área de educação e  promoção da participação popular, com a priorização das temáticas de retorno político imediato.

Algumas prefeituras de capitais ou municípios inseridos em regiões metropolitanas promovem serviços de ouvidorias que procuram acolher as solicitações da população e encaminhar aos órgãos para o devido atendimento. Os canais são diversos: presencial, telefone ou internet. Em muitas cidades o munícipe recebe um protocolo que o permite fazer o acompanhamento da demanda. Já utilizei muito o serviço na cidade do Rio de Janeiro, cidade onde reside meu pai. Lá, o serviço não te dá nenhuma garantia de atendimento, mesmo que você esteja respaldado pelo registro fotográfico do problema e pela legislação em vigor. Na ocasião fiz uma simples solicitação de adequação de passeio no entorno imediato das escolas municipais Antônio Austregésilo e Henrique de Magalhães (veja no mapa). Não tendo atendimento a nível municipal, enviei uma solicitação ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Enquanto espero o efetivo retorno desta solicitação, os alunos destas duas escolas municipais não são contemplados pelo direito respaldado em lei federal (veja a o texto sobre a natureza jurídica das calçadas escrito por Luíza Cavalcanti Bezerra).

Em paralelo venho acompanhando a imprensa que atua como observador, denunciante e critico das ações do poder público. Através de uma breve reflexão, fruto de outra conversa que tive com a Luciana, percebi que a crítica da imprensa busca reforçar seu papel de defensora da população em frente a falta de competência do poder público. Sempre respaldada por consultores, relatos de populares e comentaristas a imprensa fica sempre bem na foto.
Aqui em Minas sempre que posso assisto o MG TV e o Bom dia Minas. Jornais de alta audiência reservam a maior parte de sua agenda diária para os times de futebol e o restante para as demais temáticas do telejornal. Na parte onde são colocadas as demandas da população os jornalistas entram em contato com as prefeituras que, por meio de comunicações oficiais, respondem e justificam a ausência. Muitas vezes a resposta indica um prazo para o atendimento da demanda, mas o problema apresentado não possui nenhuma avaliação crítica e nenhum acompanhamento sistemático até a sua devida resolução.

A terceira via de para a busca do atendimento é a organização política da população. Quando uma associação de moradores possui forte organização e instrumentos para expor suas demandas, temos um cenário de embate mais equilibrado entre a população, o poder público e a imprensa. A população neste contexto toma um papel mais ativo recorrendo a diversos meios para dar publicidade ao problema e as suas demandas. A imprensa, dependendo da proporção do manifesto, não poderá ignora-lo, assumindo o papel de mais um dos reprodutores da notícia. O governo sempre preocupado com sua popularidade e capital político deixa o papel omisso em favor de uma resposta pública a ocorrência.

Retomando ao problema do meu pai, percebo que o cenário de atendimento de demandas da população possui ainda muitos desafios. É preciso saber os canais, ter articulação e saber fazer o barulho necessário.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Retomada do Kaza e Rua

Tendo origem na década passada como fanzine, o Kaza e Rua configurou o ponto de convergência das idéias, textos e imagens que considero como boa produção. Do trabalho baseado em colagens, textos manuscritos e reprodução em xerox até este endereço digital na rede mundial dos computadores, o Kaza e Rua provou ser um bom canal que me permite a liberdade de pensar e expor boas experiências.

Bom, desde 2010 a ausência de novo conteúdo no Kaza e Rua me fez refletir sobre algumas coisas com relação ao encaminhamento do site. A primeira coisa foi abandonar a função de webdesigner e utilizar um formato mais rápido e acessível. O Blogger me permitiu isso. Agora posso focar mais no conteúdo tendo a certeza que ele estará em formato acessível de smartfones, tablets e desktops.
Outro ponto é a possibilidade de desenvolver o site " on the go". O Blogger possui aplicativo móvel para emissão dos posts.

Quanto ao conteúdo ele manterá a mesma temática (arquitetura, urbanismo, design e sociedade)  com maior regularidade. Aos poucos trarei o conteúdo das versöes anteriores.
Estamos aceitando colaboradores para escrever posts que venham a configurar o conteúdo do site.

Pra 2013 felicidades a todos e longa vida ao Kaza e Rua.

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