Quando arquitetos falam sobre trajetos e percursos urbanos, questões temáticas correlatas a qualidade ambiental, segurança, diversidade de usos e fortalecimento das referencias simbólicas, são abordadas. Na prática muitos percursos, pensados por arquitetos (ou não) , não se apropriam dessas preocupações, agregando assim um contra-discurso e uma série de problemas à população. Este texto tenta explorar algumas das minhas experiências nas cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro, trazendo bons e maus exemplos com relação ao tratamento de percursos e intervenções que favorecem articulações. Tenho como referência para a elaboração deste texto a minha aproximação com os contextos abordados e as discussões com meus amigos arquitetos Henrique, Tiago, Lucas, Tadeu e minha esposa Luciana.
Maus exemplos:
1- Rodoviária de Belo Horizonte, Estação de Metrô Lagoinha e bairro da Lagoinha.
Separei esse exemplo pois eu e minha esposa vivenciamos muito a falta de articulação entre esses equipamentos devido as nossas constantes viagens ao Rio. Lá temos equipamentos localizados com distância aproximada de 100 m , separados pelo Canal Arrudas e o conjunto de vias da Av. do Contorno. Hoje os percursos são realizados por um passarela (metade metálica e metade em concreto, uma série de puxadinhos) externa a rodoviária, um entorno imediato que possui um conjunto edificado antigo, subutilizado (com alguns imóveis de referência) e o logradouro público com tratamento insuficiente dos trajetos e uma diversidade de conflitos associados a apropriação no entorno da rodoviária.
Das diversas temáticas necessárias para abordagem do problema, existe uma que me traz grande incomodo pelo fato de não ter sido desenvolvida na construção da estação de metrô lindeira a rodoviária. Por que raios não fizeram uma travessia entre esses equipamentos?!? Outra questão é a articulação do bairro Lagoinha com esses equipamentos e com o centro de Belo Horizonte. O bairro que historicamente foi parcialmente implodido e separado pelo metrô e a abertura da Av. Antônio Carlos, possui uma grande orla para o mar de concreto, asfalto, fumaça e aborrecimento do complexo viário da Lagoinha.
Apesar de ter a compreensão de que aquela confusão toda permite articulações com diversas partes da cidade, é verdade que em momento algum houve a real preocupação com articulações que não envolvessem pneus e congestionamentos. A área residual do complexo viário é a nova cracolândia belo horizontina e para quem circula por ali temos apenas a ligação conflituosa anteriormente citada.
2 - As passarelas da Av. Brasil no Rio de Janeiro.
Pra mim a cara do Rio diverso, confuso, malandro, abandonado e mais próximo da realidade da maior parte dos cariocas está na Avenida Brasil. É a avenida do Rio. Minha experiência relativa aos conflitos da avenida me levam a falar sobre as passarelas numeradas que vão do bairro de Deodoro ao Cajú. Elas refletem nas variadas soluções adotadas a pouca importância dada a paisagem dos contextos lindeiros a avenida e a acessibilidade para quem por ali circula. Na época de namoro com minha esposa, vivenciei a avenida e uma de suas passarelas em dias de semana, feriados, finais de semana, dias de chuva e de sol.
As passarelas apesar de mitigarem a separação dos bairros imposta pela Av. Brasil não possuem na sua inserção urbana e desenho a mesma preocupação das travessias urbanas propostas por Reidy ao longo do Aterro do Flamengo.
A maior parte delas não possui cobertura, articulação com os abrigos de passageiros de ônibus, e com seus pontos de acessos não adequados a NBR 9050. Vale destacar que a maior parte das passarelas adequadas a 9050 fazem o pedestre caminhar mais que necessário, devido as soluções que não possuem escadas ou elevadores como alternativas aos usuários. É chuva! É sol! É longe pra demais...
Bons exemplos:
1 - A ligação da Estação Gameleira com o Expominas.
É uma das poucas (se não for a única) articulações entre equipamentos decente em Belo Horizonte. Não é o melhor exemplo com relação as boas articulações de trajetos que existem na cidade (são muitas), mas escolhi aborda-la pois aproveita a oportunidade desperdiçada na rodoviária e porque tenho boas lembranças sobre a utilização do metrô associado a passarela para os eventos realizados no Expominas. A passarela não é um arremedo, possui desenho simples e bonito, destoando um pouco da estrutura de concreto da estação de metrô.
2 - Rio Cidade Bangu
Das diversas intervenções realizadas pelo Rio Cidade a única que defendo com unhas e dentes é a que foi realizada no bairro de Bangu. Projeto do Paulo Cazé, a intervenção efetivamente melhorou a articulação entre as duas porções separadas pela linha férrea com conforto e segurança. O eixo da centralidade do bairro foi tratado com uma requalificação urbanística que contemplou cobertura climatizada, arborização, iluminação, áreas de estar, fontes, muitos paraciclos, e bancas de jornais. O pós ocupação mostra o incremento da promoção de comércio e serviços lindeiros a estação férrea, a ampla apropriação da população e a demanda continua pela manutenção das escadas rolantes e elevadores ali instalados.
A questão que gostaria de enfatizar é que a intervenção rebate o paradigma de que as intervenções urbanas em áreas periféricas não necessitam sofisticação ou soluções que promovam mais conforto a população.
As passarelas
Infraestrutura urbana muito demandada na articulação dos espaços e equipamentos, as passarelas são efetivamente, na maioria dos casos um mal necessário. Devido ao incremento da produção rodoviarista que tomou conta do Brasil da metade do século passado até agora, muitas cidades tomaram as passarelas como solução para separar o fluxo de pedestre e veículos. Neste contexto a máxima é: "Prioridade ao automóvel e que as pessoas que criem asas".
Os profissionais responsáveis pelo projeto desses equipamentos, arquitetos (ou não), na maioria das situações foram muito infelizes nas soluções para este tipo de equipamento. Dos problemas recorrentes posso citar a falta de acessibilidade, problemas de integração com os equipamentos das modalidades de transporte coletivo, inexistência de proteção as intempéries, pouca diversidade na disposição de usos e desenho conflitante com a paisagem do entorno imediato.
Buscando referências esbarrei com um
artigo sobre as passarelas do arquiteto "Lelé" em Salvador. O texto apresenta o trabalho de um arquiteto preocupado em mitigar os conflitos das escolhas viárias da capital baiana. Pra quem quer se informar é uma boa leitura.
Ligar os pontos é necessário para aqueles que por lazer, dever ou necessidade vivenciam a cidade. Existe um processo em andamento de produção das infraestruturas de equipamentos públicos de transporte e áreas de lazer, ampliando assim as oportunidades de ligar e reatar articulações, reforçando o contexto de determinados percursos.